Você já teve a sensação de que sua vida é regida por algum titeriteiro sádico, que fica puxando suas cordinhas como se você fosse um fantoche criado unicamente para tornar a vida dele mais divertida? Já imaginou que por mais que se esforce sua vida não vai ser diferente do que foi escrito dela por um escritor que nunca gostou muito de você, um personagem coadjuvante de um filme de terceira? Já se imaginou nadando contra a correnteza com todas as suas forças, mas o destino (eu prefiro titeriteiro maldito) aumenta a força dela e te empurra de volta para o curso original do rio da vida? Bom, eu imaginei. Mas isso nunca foi o bastante pra mim. Eu precisava de provas e fui atrás delas.
Comecei com o mais básico. Toda vez que eu passava em frente de um espelho, ficava olhando de rabo de olho pra ver se alguma cordinha aparecia. Às vezes eu ia andando como quem não quer nada e, de repente, olhava rapidamente para o espelho. Mas isso só me rendeu situações de ridículo extremo, como quando tive que fugir antes que a ambulância do manicômio chamada pelo rapaz da lanchonete chegasse. Não os culpo. A lanchonete era toda decorada de espelhos e eu fiquei encarando todos eles como se tivesse alguém do outro lado...
Mas eu não desisti. Um dia, quando eu estava quase chegando ao ponto, o ônibus que sempre passa 10 minutos atrasado passou 1 minuto adiantado! Não era possível. Eu sabia que tinha alguém brincando com o meu destino e reagi automaticamente. Passei instintivamente a mão por cima da minha cabeça, mais ou menos onde ficaria o topo de um chapéu caso eu estivesse usando e, para minha surpresa, minhas mãos trombaram com grossos fios de nylon invisível! Não pensei mais (tudo bem, eu já não estava pensando antes). Agarrei os fios e puxei com todas as minhas forças e CATAPLOFT! Diante dos meus olhos um cara se estatelou no chão.
Ele ainda estava no chão, todo descabelado e com uma cara de surpresa de quem descobriu que o amante da mulher é o pai, quando eu apontei meu indicador pra ele, reuni toda minha capacidade intelectual e, gritando, fiz a seguinte e super-inteligente pergunta: "É VOCÊ?". Ele fez uma cara de interrogação e resmungou: "hã?". Botei meus neurônios para trabalhar e reformulei a pergunta para uma forma mais direta e instigante: "EU PERGUNTEI SE É VOCÊ?" Não sei se foi o medo de apanhar ou se ele não queria mais meus perdigotos voando pela sua cara, mas, para minha surpresa, ele respondeu. Deu um suspiro longo enquanto se levantava e ajeitava o cabelo e falou "sim, sou eu".
FINALMENTE! Eu encontrei o maldito titeriteiro que brincava com minha vida. O roteirista de merda que ficava fazendo piadinhas sem graça com o meu trabalho. O figurinista de incompetente que escolhia roupas que sempre mostravam a minha barriga! E agora eu me vingaria, agora eu arrancaria seus olhos e o faria comê-los. Eu ia chutar a bunda dele até meu pé quebrar, eu ia... eu ia... Enfim, eu fiz:
- Mas... Por quê?
- Por que o quê?
- Por que você zoa com minha vida?
- Eu? Tá doido?
- Claro que não. Você vive fazendo as coisas darem errado pra mim!
- Você tá é maluco. Eu sempre tento fazer o que você quer... Peraí, vamos sentar ali no boteco e conversamos melhor. O que você vai querer?
- Me diz você. É você que controla minha vida...
- Engraçadinho... GARÇON, DUAS CERVEJAS. Seguinte, eu controlo a sua vida, mas só faço o que você quer.
- É? E como você sabe o que eu quero?
- Peraí, as cervejas chegaram. Vamos fazer um brinde.
- Ao seu tombo!
- À sua vida!
- Rrrrrr
- Você começou... Voltando. Eu sei o que você quer porque eu sei. É simples assim, não dá pra explicar melhor.
- Se é assim, porque você me fez vomitar naquela festa em 94 e deixar de sair com a mais gata que tinha lá, hein?
- Eu não fiz você vomitar, você que bebeu demais! Além disso, você só a achava gata antes de conversar com ela. Depois que conversou, achou ela a menina mais insuportável do mundo. Foi por isso que você começou a beber, pra agüentar as historinhas dela, lembra?
- Ah é, verdade. Então tá. E aquele trampo maravilhoso nos EUA, hein? Porque você me fez perdê-lo.
- Você perdeu porque ainda não tinha estudado inglês (sem falar que você tava com medo de ir pra tão longe e ficar sozinho, lembra?). Quanto ao inglês, você ainda não tinha aprendido porque foi deixando, foi deixando, foi deixando e, quando precisou, não deu mais tempo.
- Hum... Tá, isso passa. A faculdade, porque eu demorei tanto pra terminar?
- Porque você dava desculpa pra não fazer. Uma hora não tinha tempo, outra não tinha dinheiro, outra blá blá blá blá. Foi enrolando até que ficou difícil de verdade. Mas demorou por sua própria culpa. Eu só te mandava pra onde você escolhia ir...
- E o ônibus que eu perdi hoje, hein?
- Bom, esse que você perdeu é do horário anterior. Ele está uns 40 minutos atrasados, você sabe disso! Mas se você tivesse acordado no horário que programamos ontem, teria pegado esse. Mas NÃO, resolveu dormir mais 10 minutos! E não me culpe! Eu gosto de dormir tanto quanto você...
- Eu acho que você tá é me enrolando!
- Olha bem pra minha cara: você acha que eu ia enganar VOCÊ!
E foi aí que eu olhei. Dei um pulo da cadeira e derrubei o copo de cerveja com o susto. Ele ainda estava um pouco sujo da queda e tinha um caroço na cabeça, mas usava roupas iguais às minhas, tinha uma barriga igual à minha, cabelos iguais aos meus, olhos iguais aos meus, mãos iguais às minhas e até a voz era igual a minha! Parecia que eu estava olhando no espelho, só que o espelho não estava imitando meus movimentos!!!
- Mas... Mas... Você é igual a mim!
- Não, eu SOU você. Ou melhor, nós somos você! Ah! Sei lá, já tentei entender isso direito, mas não consigo.
- Quer dizer que... Hã... Quer dizer que...
- Tá, pára, respira e pensa. Sim, eu controlo sua vida. Mas eu sou você, então você controla sua vida, entendeu?
- Não.
- Nem eu...
- Se VOCÊ controla minha vida - ou seria EU controlo minha vida? - então não há destino?
- Talvez haja. Ele talvez dê uns pitacos pra onde eu devo te levar, mas normalmente eu não estou prestando atenção. Você sabe que nós somos cabeça-dura e não gostamos de fazer o que os outros mandam, né?
- É... Mas e não tem mais ninguém que fica comandando minha... digo... nossa vida?
- Ah! Deve ter. Talvez Deus, Alá, ou sei lá. Mas eles nunca falaram diretamente conosco, né? Ou, se falaram, nós não ouvimos.
- Quer dizer que não tem ninguém além de mim me controlando?
- Tem eu, mas eu sou você, então não.
- Eu não posso culpar mais ninguém se algo não der certo na minha vida?
- Bom, tem a sorte, o tal do destino, talvez alguém mais. Mas normalmente a culpa é nossa mesmo.
- Eu poderia te dar uma surra para pelo menos para aliviar a raiva.
- Até poderia. Mas eu sou tão forte quanto você. E vai ser como você bater em você mesmo...
- É. Melhor deixar pra lá. Seguinte, tenho que ir pro trabalho. Volta lá pra cima que eu preciso andar rápido. Mas antes, paga a conta.
- Tá bom. O dinheiro vai sair da nossa carteira mesmo...
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)