Outro dia eu estava vendo meu filho brincar com alguns bonecos de ação (no meu tempo eu os chamava de "hominhos"). Os padrões do tapete eram tratados como estradas, casas, prisões, esconderijos; um sofá poderia ser uma montanha, um arranha-céu; o abajur era um poste, um holofote; e assim por diante. Como qualquer criança que se prese, ele não precisa de uma cidade em miniatura para suas aventuras. A imaginação é o limite e, para uma criança, a imaginação não tem limites. Lembro que eu já fui assim um dia...
Mas quando foi que isso mudou? Eu acordei um dia e BUM! A criança imaginativa, alegre e despreocupada deu lugar ao adulto prático, estressado e ocupado? Eu não lembro desse dia e, se lembrasse, teria feito velório. Mas também não é tão ruim assim. Acho que a fase mais chata de se tornar adulto já foi. Ela deve ter acontecido quando eu tinha uns 15 anos, me achava um adulto hiper-responsável, achava tudo ruim, mas não entendia nada da vida. Depois a gente vai envelhecendo e ficando mais sábio. Muda as prioridades, passa a dar mais valor a coisas simples e começa a tentar ser criança de novo (acha que eu ainda jogo videogame e leio quadrinhos porque?). Pena que não volta mais.
Depois que viramos adultos, toda forma de pensamento é limitada. Sempre paramos em algum muro social e psicológico, mesmo que isso seja feito involuntária ou inconscientemente. Eu consigo viajar na maionese, mas ainda não consigo ultrapassar a velocidade da luz nem sair do Universo (e se acabar a maionese, eu fico no meio do caminho). Quando eu era criança, nada disso era obstáculo.
Se eu pudesse falar com o Criador, cara-a-cara mesmo, sobre isso, acho que o diálogo seria mais ou menos assim:
- Posso ter minha criatividade de criança de volta?
- Como assim?
- Assistir Guerra nas Estrelas e não lembrar que o som não se propaga no vácuo, ver o herói levar 50 mil tiros e não saber que hemorragia também mata, olhar pra um restaurante e imaginar que aquilo é um planeta, cheio de aventuras. Coisas do tipo.
- Ah! Tá dizendo voltar a ser inocente e imaginar que tudo é de brincadeira?
- É... quer dizer, mais ou menos. Eu gostaria de continuar sabendo fazer aplicações na bolsa.
- Hum... sei. Você quer inocência só quando lhe convém, certo?
- Er... acho que sim. Isso é ruim?
- Não. Fiz vocês para sempre quererem o impossível mesmo.
- Então vai me dar?
- Claro que não! Tá maluco?
- Droga... E que tal inverter o sentido da vida? Nascemos velhos e sábios e vamos rejuvenescendo até morrer? Acho que a vida seria mais prazeirosa assim.
- Hum... já ouvi isso em algum lugar. Não foi o Chaplin que sugeriu algo do tipo?
- É, foi sim.
- Pena, não gosto dele. Negado.
- Mas foi você que fez ele do jeito que ele é, não?
- Foi sim. Eu fiz ele pra eu não gostar.
- Por quê?
- Porque mais cedo ou mais tarde eu teria que negar esse pedido. Agora eu tenho uma justificativa.
E ele daria uma piscadela e sairia andando.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)